quarta-feira, 25 de abril de 2007

Num bairro moderno - Cesário Verde

Aqui há dias estava a falar com uma amiga minha sobre algumas temáticas que aprendi no secundário. Foi então que ela disse-me que a poesia de Cesário Verde deixou de ser leccionada no programa da disciplina de Português. E falou-me também de todas as outras alterações que surgiram. O Memorial do Convento, de José Saramago foi introduzido no programa, assim também como os Lusíadas, e retiraram a poesia de Sophia de Mello Breyner, Miguel Torga e aquele que tanto gosto, Cesário Verde. Se actualmente se fala tão pouco em Cesário, daqui a dez anos já ninguém se lembrará. Mas eu vou fazer questão de continuar a postar os seus poemas, assim ninguém que me visita poderá esquecer o Cesário!

Confesso que fiquei triste. Sei que a grande maioria das pessoas não gosta da sua poesia, acham-na chata, sem lógica, sem nenhum sentido. Na minha turma quase ninguém gostava. Mas eu gosto muito. Acho super interessante a maneira como o poeta descreve as coisas de forma tão minuciosa, tão realista, captando tudo aquilo que está em seu redor, de forma bastante objectiva e envolvendo a sua subjectividade e fugas imaginativas. Na sua poesia, a descrição dos edifícios, das ruas, do povo trabalhador, da mulher do campo em contraste com a mulher citadina, entre outros tantos aspectos, são uma constante.

Agora vou transcrever um lindo poema que eu gosto muito, que fala sobre a vitalidade e o colorido saudável dos produtos do campo e de uma rapariga "rota, pequenina e azafamada" do qual o sujeito poético admira pelo seu trabalho árduo.
Espero que gostem...


Num bairro moderno

A Manuel Ribeiro

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalçada;
Pelos jardins estancam-se os nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadmizada.

Rez de chausée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esgadelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais". E muito descansado,
Atira um cobre ignóbil, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente,- que visãao de artista!-
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma e outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha , por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas.
Descobria Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas , um semblante
Nas posições de certos frutos.
E entre As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações, pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros nas cenouras.

O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!"...

Eu acerquei-me dela sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantámos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!"
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e como o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam menages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.


Este é um poema nitidamente realista. Deambulando pela cidade de Lisboa, o sujeito poético descreve de forma minuciosa e concreta, tudo o que está em seu redor.
Ao longo de todo o poema a regateira "rota, pequenina azafamada", que se depara com o sujeito poético, é vista como a transportadora de um mundo vital e campestre para a rua macadamizada da cidade. O sujeito poético valoriza o seu espírito de sacrifício e dinamismo, criticando o facto da sociedade permitir que esta rapariga viva num contexto de desigualdade, com um aspecto débil, franzida, carregando um excesso de peso que é inadequado ao seu corpo.

Ao longo do poema também podemos constatar a fuga imaginativa do poeta tendo em análise a transformação e associação que faz entre os frutos que estão no cabaz da regateira associados a um "novo corpo orgânico". Esta capacidade de transfigurar a realidade encontra-se nitidamente associada à corrente literária típica em Cesário Verde, o Surrealismo. Para além desta temos outras típicas da sua poesia, o Realismo, o Parnasianismo, o Impressionismo e o Simbolismo.

E vocês? Gostam da poesia do Cesário Verde?
Quem quiser acrescentar mais alguma sugestão, chegou o momento de o fazer :)

31 comentários:

kathy disse...

adoro a poesia do Cesário...

bEtA disse...

Não te preocupes... Eu tenho estado a dar Cesário Verde na faculdade ;)
O seu mérito ainda é reconhecido! :D

Pekena disse...

Bem, se estás na faculdade e ainda estás a dar Cesário, fico contente :D

Afinal não deve estar assim tão esquecido! Bjs***

david santos disse...

Sabes por que motivo ainda tentam abafar o nosso Cesário? Por que o ele diz, pois não dizia, porque continua vivo, ainda mete medo aos materialistas corruptos e a pessoas sem carácter. Todas as palavras que ele escreveu nesse poema, quem quiser dar-se ao trabalho de as ler, verifica que elas estão tão actualizadas nos dias de hoje, como estiveram naquele tempo. Parabéns, Pequena! Tens aqui o trabalho mais belo e mais cheio de conteúdo que anda hoje em toda a blogsfera. Agora convido-te a ir ver o meu novo trabalho.
Quanto ao teu, não há mácula. Espectacular!

Alexandre disse...

Uau, deste a cara!!!! Fantástico!!! Fizeste bem! Imaginava-te assim, com um sorriso bonito e tudo!

Até porque o teu blog está cada vez melhor! Depois do melhor artigo sobre o 25 A que vi nos vários blogues trazes Cesário Verde!!!

Com comentário ao poema, o que geralmente as pessoas não fazem, limitam-se a transcrever os poemas e pronto... acho que fiz muito bem eu escolher o teu blog... Também já fui ao da tua irmã, acho que ela tb tem tudo para marcar pontos na blogosfera.

Agora vou fazendo um print do poema para ler melhor e depois voltarei...

Beijinhos!!!!

SONY disse...

Meu grande Cesário!!!!
Bairro Moderno...sempre presente as desigualdades das classes...as sinestesias...os quadros que podemos imaginar feitos de seus poemas...Um POETA INTEMPORAL!
Analizei-os todos os poemas dele, a sua vida, a sua morte!
Cesário...inesquecível imortal Cesário!
Ainda me lembro do meu exame sobre Cesário tive 19 e escrevi até que a mão me doesse...foi preciso a minha professora dizer -"Sónia pare já chega! O que escreveu chega e sobra" :-)
Um bj pekena podias postar Contradições é o meu preferido!
Um bj Sony :-)

Pekena disse...

Alexandre: obrigda :D
Gosto de comentar sempre os seus poemas :D

Obrigada!!

Sony:Não está esqueçido! O próximo poema de Cesário, será Contradições. O meu favorito é O Sentimento dum Ocidental. Gosto muito.

Bjs***

Enfim... disse...

desejo-te um optimo fim de semana

bjokas

Moura ao Luar disse...

Beijoka de bom fim de semana

Alexandre disse...

Bom dia,

apetecia-me deambular pela cidade de Lisboa e agarrar as pessoas, os canários, as janelas, as ruas como o Cesário escreveu...

... mas vou deambular pelo Fórum Almada... não é tão atractivo, mas pelo menos tem lá a FNAC para ver livros e CDs!!!

Um beijinho grande e um bom Sábado. Até logo!

Pekena disse...

Ahahhahah... Gostei, gostei, gostei!

mymind disse...

hehe s te vir na rua ja t conhexo, =P lol
px eu to no 12º e realment Cesario verde n é mencionado, pelo k li aki gostei. ja to tao cansada de pessoa, camoes, pessoa, camoes, lol, gost d algumas coisas deles, mas na escola tems d ir mais ao pormenor e eu n gosto mt d "discurssar",lool
bm f-d-s! bjos

peciscas disse...

O Cesário não pode ser arrumado a um canto!

Esperança disse...

Infelizmente não sou dada a leitura foi um gosto que não adquiri desde nova no entanto minha grande Pekena gostei do teu Post até porque sei que gostas muito do fulano! agora traiste-o com o Antero de Quental? Apanhei-te lol

Desejo-te um Bom fim de semana ... comigo muahh

Lusófona disse...

Olá Pekena!!

Vim conhecer o seu blog... Fantástico!!!

Você escreve com intesidade... parece ser uma pessoa sensível e preocupada com os acontecimentos gerais...

Beijinhos e obrigada pela visita :)

Pekena disse...

Mymind - Ehehhe... Sou pequenina mas não tanto (esta é uma pista)
Eu também fartava-me de estudar os Lusíadas, não gostei muito :/

Peciscas: Não pode mesmo!

Esperança: Pois é! Sou uma traidora ehheheh... agora com o Antero, vê tu bem?!! Ainda se fosse o Afonso Henriques...
Fds contigo??? Hmmm... não me parece.

Lusófona: obrigada pela visita.
Será sempre bem-vinda :)

Uma boa semana a todos!

silva disse...

Emfim ganhei coragem para ler um pouco sobre Cesário Verde. Achei interessante pois desconhecia completamente.Nunca dei nada disto na escola.
Beijos, continua

Carolina disse...

Enganas-te, felizmente, a poesia de Cesário Verde faz parte do programa do 11º ano de Português.
Comecei a dar há um mês e estou fascinada, apesar de o meu recurso literário preferido não ser a poesia, é impossivel não gostar de Cesário!

patrícia disse...

Se depender de mim Cesário Verde não vai ser esquecido tão breve,pois estudando sua obra no quinto semestre de Letras adorei suas poesias e reconheci seu valor como o grande literato que é.Digo até que nesta segunda próxima apresentarei um seminário extenso sobre a vida e a obra de Cesário Verde,e estou adorando conhecer e apreciar este grande homem.

Inês disse...

Tal como a Carolina disse, eu estou a dar Cesário Verde em Português de 11º ano, mas não acho nada fácil. Quer dizer... É o segundo poema que analiso dele, precisamente este que aqui nos trazes. Não consegui entender se o sujeito poético transporta para a vendedeira o corpo orgânico.

Ferreira, Luís Manuel Silva disse...

Fiquei muito contente ao saber que os jovens gostam da poesia de Cesário Verde.
Eu julgo que há pessoas que nunca deveriam morrer e o Cesário seria um deles, até porque actualmente teria muito para escrever.
Adoro literatura, gosto de ler e de escrever e, foi por isso que comecei também a escrever, mas em prosa, já que para a poesia confesso não ter jeito nenhum.
Até ao momento já editei dois livros numa pequena editora em fase de expansão.
Os meus livros são:
A vida e os horizontes da mudança - livro com treze contos cujas temáticas são todas da fase contemporânea e as localidades onde eles se passam todas portuguesas.
Os doze rapazes - uma novela, precedida por um pequeno prefácio, os quais poderão servir de reflexão sobre assuntos polémicos e actuais na escola como como a indisciplina, a avaliação dos professores, o Estatuto da Carreira Docente, o vilipendiar os professores, etc.
Um docente desempregdo deixou tudo e foi para muito longe dar aulas, lá foi muito mal tratado pelo Presidente do Conselho Executivo, pela população e pelos alunos, sobretudo por uma turma de doze rapazes repetentes que faziam mil e uma coisas na sala de aula.
Este livro é dedicado aos professores, tal como o anterior é dedicado aos trabalhadores. A minha literatura não é apenas para ficar muito famoso ou aparecer nos telejornais, é para ocupar os tempos-livres das pessoas e ajudar a população a reflectir sobre o mundo em que vivemos, apesar de ser literatura e, por isso, não ser nada de real, também não pretendo ofender ninguém pessoalmente.
Neste momento, os livros estão à venda na loja online da Ecopy www.macalfa.pt/ecopy - livrarias Leitura e lojas Ecopy no Porto, Byblos e Apolo 70 em Lisboa, Americana (para a semana) em Leiria e Infante no Funchal.
Eu também vendo pessoalmente ou à cobrança.
Mais informações sobre mim e os meus livros em: www.osdozerapazes.page.vu - www.daescritaaleitura.blogspot.com - www.falandodalingua.blogspot.com
ou no site da editora Ecopy: www.macalfa.pt/ecopy ou http://ecopy.macalfa.pt

Nuno disse...

Cesário existe no Secundário - 11º ano. Comecei na última aula a estudar. Parece que vou gostar, mas esperaremos

Tita disse...

Vi o post e tenho a dizer que Cesário Verde ainda se lecciona no secundário, no 11º ano e estou a dar :D

marisa disse...

andava a fazer pesquisa e só agora encontrei o seu blog. apesar da entrada ter sido escrita em 2007 posso lhe dizer que cesário verde está no programa de portugues pelo menos desde 2007 (foi quando ele me começou a dar dores de cabeça, pois nao percebo nada de análise de poemas) :S

Anónimo disse...

Estuda-se Cesário Verde no 11ºano de Secundário.

Anónimo disse...

tenho que falar do realismo/naturalismo e modernismo alguem pode ajudar?

Anónimo disse...

Para seu regozijo, Cesário verde é atualmente leccionado no 11ºano

Anónimo disse...

Nao e verdade a parte de nao ser dado para estudarmos, pois estou no decimo primeiro ano, i estou a fazer neste momento um teste de Cesario verde, qe o mesmo consta no modulo 8 . . . procure na internet! voce vera como ainda e dado

Joao Luis Simoes disse...

Alguém me consegue fazer uma abalise da estrofe 15? Agradecido

Joao Luis Simoes disse...

Análise*

Joao Luis Simoes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.