
Confesso que fiquei triste. Sei que a grande maioria das pessoas não gosta da sua poesia, acham-na chata, sem lógica, sem nenhum sentido. Na minha turma quase ninguém gostava. Mas eu gosto muito. Acho super interessante a maneira como o poeta descreve as coisas de forma tão minuciosa, tão realista, captando tudo aquilo que está em seu redor, de forma bastante objectiva e envolvendo a sua subjectividade e fugas imaginativas. Na sua poesia, a descrição dos edifícios, das ruas, do povo trabalhador, da mulher do campo em contraste com a mulher citadina, entre outros tantos aspectos, são uma constante.
Agora vou transcrever um lindo poema que eu gosto muito, que fala sobre a vitalidade e o colorido saudável dos produtos do campo e de uma rapariga "rota, pequenina e azafamada" do qual o sujeito poético admira pelo seu trabalho árduo.
Espero que gostem...
Num bairro moderno
A Manuel Ribeiro
Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalçada;
Pelos jardins estancam-se os nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadmizada.
Rez de chausée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.
E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.
E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esgadelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.
Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais". E muito descansado,
Atira um cobre ignóbil, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.
Subitamente,- que visãao de artista!-
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma e outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.
E eu recompunha , por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas.
Descobria Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.
As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.
Há colos, ombros, bocas , um semblante
Nas posições de certos frutos.
E entre As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.
E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações, pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros nas cenouras.
O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!"...
Eu acerquei-me dela sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantámos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.
"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!"
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.
E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.
Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e como o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.
Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam menages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.
E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.
E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.
Este é um poema nitidamente realista. Deambulando pela cidade de Lisboa, o sujeito poético descreve de forma minuciosa e concreta, tudo o que está em seu redor.
Ao longo de todo o poema a regateira "rota, pequenina azafamada", que se depara com o sujeito poético, é vista como a transportadora de um mundo vital e campestre para a rua macadamizada da cidade. O sujeito poético valoriza o seu espírito de sacrifício e dinamismo, criticando o facto da sociedade permitir que esta rapariga viva num contexto de desigualdade, com um aspecto débil, franzida, carregando um excesso de peso que é inadequado ao seu corpo.
Ao longo do poema também podemos constatar a fuga imaginativa do poeta tendo em análise a transformação e associação que faz entre os frutos que estão no cabaz da regateira associados a um "novo corpo orgânico". Esta capacidade de transfigurar a realidade encontra-se nitidamente associada à corrente literária típica em Cesário Verde, o Surrealismo. Para além desta temos outras típicas da sua poesia, o Realismo, o Parnasianismo, o Impressionismo e o Simbolismo.
E vocês? Gostam da poesia do Cesário Verde?
Quem quiser acrescentar mais alguma sugestão, chegou o momento de o fazer :)
31 comentários:
adoro a poesia do Cesário...
Não te preocupes... Eu tenho estado a dar Cesário Verde na faculdade ;)
O seu mérito ainda é reconhecido! :D
Bem, se estás na faculdade e ainda estás a dar Cesário, fico contente :D
Afinal não deve estar assim tão esquecido! Bjs***
Sabes por que motivo ainda tentam abafar o nosso Cesário? Por que o ele diz, pois não dizia, porque continua vivo, ainda mete medo aos materialistas corruptos e a pessoas sem carácter. Todas as palavras que ele escreveu nesse poema, quem quiser dar-se ao trabalho de as ler, verifica que elas estão tão actualizadas nos dias de hoje, como estiveram naquele tempo. Parabéns, Pequena! Tens aqui o trabalho mais belo e mais cheio de conteúdo que anda hoje em toda a blogsfera. Agora convido-te a ir ver o meu novo trabalho.
Quanto ao teu, não há mácula. Espectacular!
Uau, deste a cara!!!! Fantástico!!! Fizeste bem! Imaginava-te assim, com um sorriso bonito e tudo!
Até porque o teu blog está cada vez melhor! Depois do melhor artigo sobre o 25 A que vi nos vários blogues trazes Cesário Verde!!!
Com comentário ao poema, o que geralmente as pessoas não fazem, limitam-se a transcrever os poemas e pronto... acho que fiz muito bem eu escolher o teu blog... Também já fui ao da tua irmã, acho que ela tb tem tudo para marcar pontos na blogosfera.
Agora vou fazendo um print do poema para ler melhor e depois voltarei...
Beijinhos!!!!
Meu grande Cesário!!!!
Bairro Moderno...sempre presente as desigualdades das classes...as sinestesias...os quadros que podemos imaginar feitos de seus poemas...Um POETA INTEMPORAL!
Analizei-os todos os poemas dele, a sua vida, a sua morte!
Cesário...inesquecível imortal Cesário!
Ainda me lembro do meu exame sobre Cesário tive 19 e escrevi até que a mão me doesse...foi preciso a minha professora dizer -"Sónia pare já chega! O que escreveu chega e sobra" :-)
Um bj pekena podias postar Contradições é o meu preferido!
Um bj Sony :-)
Alexandre: obrigda :D
Gosto de comentar sempre os seus poemas :D
Obrigada!!
Sony:Não está esqueçido! O próximo poema de Cesário, será Contradições. O meu favorito é O Sentimento dum Ocidental. Gosto muito.
Bjs***
desejo-te um optimo fim de semana
bjokas
Beijoka de bom fim de semana
Bom dia,
apetecia-me deambular pela cidade de Lisboa e agarrar as pessoas, os canários, as janelas, as ruas como o Cesário escreveu...
... mas vou deambular pelo Fórum Almada... não é tão atractivo, mas pelo menos tem lá a FNAC para ver livros e CDs!!!
Um beijinho grande e um bom Sábado. Até logo!
Ahahhahah... Gostei, gostei, gostei!
hehe s te vir na rua ja t conhexo, =P lol
px eu to no 12º e realment Cesario verde n é mencionado, pelo k li aki gostei. ja to tao cansada de pessoa, camoes, pessoa, camoes, lol, gost d algumas coisas deles, mas na escola tems d ir mais ao pormenor e eu n gosto mt d "discurssar",lool
bm f-d-s! bjos
O Cesário não pode ser arrumado a um canto!
Infelizmente não sou dada a leitura foi um gosto que não adquiri desde nova no entanto minha grande Pekena gostei do teu Post até porque sei que gostas muito do fulano! agora traiste-o com o Antero de Quental? Apanhei-te lol
Desejo-te um Bom fim de semana ... comigo muahh
Olá Pekena!!
Vim conhecer o seu blog... Fantástico!!!
Você escreve com intesidade... parece ser uma pessoa sensível e preocupada com os acontecimentos gerais...
Beijinhos e obrigada pela visita :)
Mymind - Ehehhe... Sou pequenina mas não tanto (esta é uma pista)
Eu também fartava-me de estudar os Lusíadas, não gostei muito :/
Peciscas: Não pode mesmo!
Esperança: Pois é! Sou uma traidora ehheheh... agora com o Antero, vê tu bem?!! Ainda se fosse o Afonso Henriques...
Fds contigo??? Hmmm... não me parece.
Lusófona: obrigada pela visita.
Será sempre bem-vinda :)
Uma boa semana a todos!
Emfim ganhei coragem para ler um pouco sobre Cesário Verde. Achei interessante pois desconhecia completamente.Nunca dei nada disto na escola.
Beijos, continua
Enganas-te, felizmente, a poesia de Cesário Verde faz parte do programa do 11º ano de Português.
Comecei a dar há um mês e estou fascinada, apesar de o meu recurso literário preferido não ser a poesia, é impossivel não gostar de Cesário!
Se depender de mim Cesário Verde não vai ser esquecido tão breve,pois estudando sua obra no quinto semestre de Letras adorei suas poesias e reconheci seu valor como o grande literato que é.Digo até que nesta segunda próxima apresentarei um seminário extenso sobre a vida e a obra de Cesário Verde,e estou adorando conhecer e apreciar este grande homem.
Tal como a Carolina disse, eu estou a dar Cesário Verde em Português de 11º ano, mas não acho nada fácil. Quer dizer... É o segundo poema que analiso dele, precisamente este que aqui nos trazes. Não consegui entender se o sujeito poético transporta para a vendedeira o corpo orgânico.
Fiquei muito contente ao saber que os jovens gostam da poesia de Cesário Verde.
Eu julgo que há pessoas que nunca deveriam morrer e o Cesário seria um deles, até porque actualmente teria muito para escrever.
Adoro literatura, gosto de ler e de escrever e, foi por isso que comecei também a escrever, mas em prosa, já que para a poesia confesso não ter jeito nenhum.
Até ao momento já editei dois livros numa pequena editora em fase de expansão.
Os meus livros são:
A vida e os horizontes da mudança - livro com treze contos cujas temáticas são todas da fase contemporânea e as localidades onde eles se passam todas portuguesas.
Os doze rapazes - uma novela, precedida por um pequeno prefácio, os quais poderão servir de reflexão sobre assuntos polémicos e actuais na escola como como a indisciplina, a avaliação dos professores, o Estatuto da Carreira Docente, o vilipendiar os professores, etc.
Um docente desempregdo deixou tudo e foi para muito longe dar aulas, lá foi muito mal tratado pelo Presidente do Conselho Executivo, pela população e pelos alunos, sobretudo por uma turma de doze rapazes repetentes que faziam mil e uma coisas na sala de aula.
Este livro é dedicado aos professores, tal como o anterior é dedicado aos trabalhadores. A minha literatura não é apenas para ficar muito famoso ou aparecer nos telejornais, é para ocupar os tempos-livres das pessoas e ajudar a população a reflectir sobre o mundo em que vivemos, apesar de ser literatura e, por isso, não ser nada de real, também não pretendo ofender ninguém pessoalmente.
Neste momento, os livros estão à venda na loja online da Ecopy www.macalfa.pt/ecopy - livrarias Leitura e lojas Ecopy no Porto, Byblos e Apolo 70 em Lisboa, Americana (para a semana) em Leiria e Infante no Funchal.
Eu também vendo pessoalmente ou à cobrança.
Mais informações sobre mim e os meus livros em: www.osdozerapazes.page.vu - www.daescritaaleitura.blogspot.com - www.falandodalingua.blogspot.com
ou no site da editora Ecopy: www.macalfa.pt/ecopy ou http://ecopy.macalfa.pt
Cesário existe no Secundário - 11º ano. Comecei na última aula a estudar. Parece que vou gostar, mas esperaremos
Vi o post e tenho a dizer que Cesário Verde ainda se lecciona no secundário, no 11º ano e estou a dar :D
andava a fazer pesquisa e só agora encontrei o seu blog. apesar da entrada ter sido escrita em 2007 posso lhe dizer que cesário verde está no programa de portugues pelo menos desde 2007 (foi quando ele me começou a dar dores de cabeça, pois nao percebo nada de análise de poemas) :S
Estuda-se Cesário Verde no 11ºano de Secundário.
tenho que falar do realismo/naturalismo e modernismo alguem pode ajudar?
Para seu regozijo, Cesário verde é atualmente leccionado no 11ºano
Nao e verdade a parte de nao ser dado para estudarmos, pois estou no decimo primeiro ano, i estou a fazer neste momento um teste de Cesario verde, qe o mesmo consta no modulo 8 . . . procure na internet! voce vera como ainda e dado
Alguém me consegue fazer uma abalise da estrofe 15? Agradecido
Análise*
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